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Maitena: A Verdade Nua e Crua

Maitena: A Verdade Nua e Crua

A forma como escrevo não tem nenhuma forma de prioridade, é exposta conforme os nomes surgem dentro de mim, directamente da minha mente para o computador.
Não sei o que se passa com as mulheres espanholas, de onde lhes vem essa garra. Também as Argentinas, parece que herdaram o sangue de lutadores e irreverentes mulheres que sabem o que querem. Não sei porque estas e não outras mas foi assim que se formaram as identidades nacionais. Umas têm a doucura – todo o resto da américa latina, enquanto estas têm a força. Contudo, não pretendo iniciar nenhum debate identitário, e se falo disso é apenas para dizer que as admiro, que me atraiem e que gosto de ler sobre como e o que pensam.
Maitena é quem é. Igual a si própria, traduz as mais profundas questões femininas em tiras de banda desenhada e com humor relata situações do dia à dia que refletem mais do que isso, refletem a nossa identidade enquanto mulher contemporânea, e em frash momentâneos expõe abertamente os nossos dilemas, leia-se as nossas feridas.
A brincar a brincar diz-se a verdade, e Maitena a diz, nua e crua, como nos acostumamos a desacostumar.

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Rosa Montero – A Astúcia da Imaginação

Rosa Montero - A Astúcia da Imaginação

“Soy una escritora orgánica porque escribo como bebo o como respiro…. Es una necesidad esencial. Escribo porque no puedo vivir sin escribir. Y uno siempre escribe para aprender, para comprender, para saber, para intentar entenderte y entender el mundo”.
– Rosa Montero

Esta foi a minha grande descoberta. Foi uma descoberta de um modo brilhante de escrever. Um jeito único, característico. Ao meu ver, é essa habilitada de criar um estilo próprio, um universo singular que faz um bom escritor.
Dizem que não é o conteúdo que faz a história, mas a forma como o narramos. Existem histórias inesqueciveis sobres coisas banais, e existem histórias terrivelmente desinteressantes sobre as mais intensas das aventuras. O que faz um bom escritor é pois o talento de contar, de arrastar- nos dentro das histórias, como se de uma avalanche se tratasse, na qual não temos outra hipótese senão a de ficarmos submersos nela (ou por ela). É por isso que “perdemos-nos”, “mergulhamos” ou “somos absorvidos” por um livro. A língua é um organismo vivo, um fio condutor de expressão social, e frases como estas não pretendem mais do que tentar refletir um pouco da prazereira intensidade de uma boa leitura. Uma dessa leituras em que fechamos a porta para o que se passa lá fora, lá em cima no nível da superfície, no nível do real.
Concordo, e quem sou eu para duvidar dos grandes estudiosos da literatura, porém por vezes existem génios, que se destacam, que sabem não só contar como também criar enredos fascinantes. Rosa Montero é uma Autora desse tipo, do tipo A (grande).
Com ela tudo foi para mim uma descoberta… Foi uma descoberta da literatura feminina contemporânea espanhola, da escrita rápida e fluída, sustentada na influência da psicologia e da mulher urbana actual. Personagens intensos, compostos por mulheres interessantes, irreverentes, que entre amores e angústias tacteam sobre o sentido da vida. Mulheres irónicas, de humor aguçado e (auto)crítica afiada. Personagens e autoras se confundem nessa literatura, composta de mulheres fortes e orgulhosas, também isso um reflexo cultural. Os dramas de vida desenrolam-se, sem que sejam verdadeiros dramas, mas repletos de paixão e fluem aparentemente descontrolados, como flui a real vida quotidiana. Contudo, atrás do pano, um controlo de maestro actua capaz de mover cada peça neste tabuleiro de xadrez aparentemente caótico, e no surpreende-nos com um xaque-mate, deixa-nos de boca aberta e dá sentido a todas as páginas que ávidamente devoramos.
Foi não só a descoberta desse novo universo, ali tão próximo de mim (na altura vivia em Lisboa) e do qual nada sabia.
Foi também a descoberta de uma época que julgava morta, sobre um manto (obs)escuro da história, a dita Idade das Trevas, ou seja a tenebrosa Idade Média. O primeiro livro da Rosa Montero que li, ou melhor engoli, foi A História do Rei Transparente (Ed. Asa), onde a autora de formação jornalistica, levanta o pano que durante tanto tempo cobriu tal período histórico. Descobri que a Idade Média foi também uma época repleta de magia, uma época de conecção com a natureza e reflexão sobre os mistérios da vida, uma época em que a bruxaria e outras formas de ocultismo estavam não só activas como colocavam algum poder em mãos femininas. Foi também uma época de esperança, de contestações, de revoltas e de revoluções. Foi uma época de enriquecimento intelectual e espiritual que preparou a sociedade para a etapa seguinte, para o Renascimento. Talvez um pouco naif de minha parte, mas nunca tinha parado para pensar como o nosso Renascer das Trevas, foi fruto de vários focos de luzes colocados aqui e acolá. Como foi portanto acesso por inúmeras velas que lhe prepararam o terreno. Mas isso não lemos nos livros de história.
Descobri também a força do elemento surpresa na narrativa, a forma como se pode narrar como se de uma jogo de poquer se tratasse, baralhando cartas, dizendo uma coisa e fazendo outra, surpreendendo o adversário a cada partida. Mas descobri sobretudo o Sentido de Humor coerente, aquele que não tira nem a intensidade nem a seriedade da história, mas que provoca apenas descargas elétricas, gargalhadas e uma leitura mais prazerosa.
A ideia do absurdo caricato foi também um presente. Quem além de Rosa Monteiro, é capaz de iniciar um romance com uma mulher que se prepara para partir de férias com o marido,quando ele desaparece na casa de banho do aeroporto, lá dentro na casinha, enquanto ela o aguardava na porta?? ( A filha do Canibal- Ed.Presença )
Isto tudo para dizer que descobri uma autora que fala sobre mulheres e para mulheres de uma forma descontraída e inteligente, que nos envolve nos seus enredos e nos faz cair de amor pelas suas personagens. Um mulher supreendente, de grande humor e originalidade.
É que descobri sobretudo uma das coisas mais preciosas para quem gosta de ler, um autor que nunca nos decepciona. Só que nesse caso ainda por cima é mulher.

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